sábado, 16 de janeiro de 2010

"Luta pela sobrevivência anula civilidade, dizem psicólogos..."

"Luta pela sobrevivência anula civilidade, dizem psicólogos..." - MARY PERSIA da Folha Online
"-As imagens de saques em meio às ruínas de Porto Príncipe-HAITÍ-rodaram o mundo e se destacaram em meio ao choro e à desolação dos haitianos em ruas,praças e tendas improvisadas.No cenário de destruição,a insegurança em relação à própria sobrevivência passa a ditar as ações das vítimas do terremoto que devastou o Haiti.
Para os haitianos,a incerteza quanto ao futuro diz respeito não ao próximo ano ou década, mas à próxima hora.Onde não há quase nada,A CIVILIDADE DESAPARECE!"Vemos o desespero ali. Existe uma perda de controle das pessoas", diz Leila Tardivo, livre-docente do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo). "Muito da própria civilidade se perde. Há um desespero mais que animalesco na briga por comida."- Para a psicóloga,o mundo está diante de um estresse incomensurável."É quase uma horda primitiva, e digo sem qualquer preconceito. É a perda da civilidade, da evolução como homem, provocada por uma situação extremada que não podemos julgar-não nos é dado esse direito. Qualquer um de nós poderia fazer aquilo."-Diferentemente do que as imagens divulgadas na TV e na internet podem sugerir,o ato de saquear comida pode ser a face de um contexto emocional que não tem relação com o egoísmo..."As pessoas que saquearam podem ter tido um ato altruísta,no sentido de dar aquele alimento para o filho ou para a mãe.É uma situação muito além dos limites dele",considera."Aquela realidade mexe tão profundamente com questões básicas do ser humano que eles perdem os controles sociais que todos temos, de moralidade." - Ocorrem sentimentos e ações de toda espécie após um desastre. "Não ter nenhuma reação seria estranho".Hoje,o Haiti é um terreno mais que favorável ao estresse pós-traumático,numa equação cujos fatores são muito mais antigos que os tremores de magnitude 7,0."O desenvolvimento do quadro de estresse está ligado a comprometimentos anteriores ao evento.As pessoas já eram vítimas de problemas antes do desastre".Se antes do terremoto os sentimentos de insegurança e desordem estavam sempre presentes,agora eles são gritantes.
Apoio e vitimização...A extensão dos problemas psicológicos dos haitianos terá relação direta com a demora no atendimento das necessidades básicas de sobrevivência!... "Quanto mais rápido for restabelecida a normalidade da vida, menor o comprometimento". "O fato de ter fé ajuda muito a manter a esperança....Mas o que vai confortá-los é o atendimento das necessidades básicas.É preciso um abrigo,de lona que seja.Um psicólogo pouco ou nada poderá fazer se não houver o que comer."- "No trabalho da ajuda humanitária para prover comida,abrigo e um mínimo de sanidade,é importante não subestimar as capacidades das vítimas e buscar contemplar a cultura e a experiência locais"- "É preciso ver essas pessoas como sobreviventes ativos.Eles são os proprietários da sua localidade, têm uma cultura. É necessário colocá-los nesse processo", diz o especialista. "É algo fundamental para pensar no processo de reconstrução."

Assim, a comunidade mostra-se mais importante do que um psicólogo, e as equipes de auxílio devem estar atentas a isso. "Coisas simples como facilitar a comunicação entre eles para que se encontrem são muito importantes", diz Gagliato.

Em 2004, quando um tsunami parte da Indonésia e outros países asiáticos, a organização local foi um ponto de apoio fundamental para a reconstrução. "A ajuda humanitária internacional ficou surpresa com as comunidades. Eles se reorganizaram e formaram guetos", relata. "É importante não vitimizarmos mais ainda as vítimas."

Via Folha Online

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